Goldman Sachs eleva previsão de crescimento da música gravada pela 1ª vez em 3 anos
Banco projeta alta de 6,7% na receita global em 2026 e 5,8% ao ano até 2035, com América Latina crescendo 17,1% em música gravada em 2025. Relatório aponta monetização — e não novos assinantes — como o motor da próxima década.

O número que muda a projeção
O Goldman Sachs revisou para cima, pela primeira vez desde 2022, sua previsão para a música gravada. O banco projeta alta de 6,7% na receita global de varejo em 2026 e crescimento médio anual de 5,8% entre 2025 e 2035, segundo o relatório "Music in the Air", de 10ª edição, publicado em 15 de outubro e citado pelo Billboard e pelo Mundo da Música.
O mercado global de música — música gravada, direitos de editora e shows ao vivo — deve ir de US$ 112,5 bilhões em 2025 para US$ 198,1 bilhões em 2035, de acordo com o mesmo documento.
O que a contagem de 2025 mostrou
O mercado global de música gravada cresceu 6,4% em 2025, até US$ 31,7 bilhões em moeda constante — 0,6 ponto percentual acima do que o banco havia projetado, segundo o Billboard.
Dentro desse total, o streaming cresceu 7,7%, contra 7,4% esperado. Mas o streaming por assinatura ficou abaixo do previsto: avançou 8,8% quando a projeção era de 9,0%. O Goldman atribui o desvio à busca por usuários em mercados emergentes, onde a receita média por usuário é menor do que nos Estados Unidos, e a ofertas com desconto e pacotes com outras assinaturas.
O resultado prático: crescer a base de usuários ficou mais barato do que cobrar mais por cada usuário. E o plano de crescimento seguinte do banco troca volume por monetização.
Físico surpreende, publicidade desacelera
O físico superou a projeção com folga: cresceu 8% em 2025, contra 1,4% esperado, impulsionado por alta de quase 14% na demanda por vinil, com destaque para superfãs no Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos, segundo o relatório.
Na outra ponta, o Goldman reduziu a expectativa para a receita de publicidade no streaming, que deve desacelerar para crescimento de 1% a 3%.
Sincronização e direitos de execução também decepcionaram. A receita de sincronização encolheu 2,0% em 2025, quando a projeção era de alta de 6%; direitos de execução avançaram apenas 0,3%, contra 6% previstos. O banco aponta, entre os motivos, o rebote mais lento após a greve dos roteiristas de Hollywood, em 2023.
América Latina lidera a alta e enfrenta o teste do preço
A América Latina foi a região que mais cresceu em música gravada em 2025, com alta de 17,1%, segundo o relatório, citado pelo Mundo da Música. Brasil e México puxaram o resultado ao bater recorde de novos assinantes de streaming.
A região representou 24% dos assinantes do Spotify Premium no segundo trimestre de 2026, com crescimento de 3% em relação ao mesmo período de 2022. Mas o documento registra um desgaste: a América Latina tem uma das maiores proporções de usuários em plano família, o que reduz a receita por pessoa e reflete o alto índice de compartilhamento de contas na região.
Projeção do banco: a região deve ser uma das primeiras emergentes a ver aumento de preços nas assinaturas.
IA: receita no curto prazo, risco no longo
O licenciamento relacionado a IA, as ferramentas de criação e novas formas de monetização têm potencial para elevar em cerca de 10% as receitas da música gravada até 2035, estima o Goldman, segundo o Mundo da Música.
O mesmo relatório avisa que o modelo tradicional de pagamento de royalties "pode ser pressionado", já que milhões de faixas geradas por IA que entram no streaming "desviam uma parte do montante de royalties da propriedade intelectual criada por humanos" (em tradução livre).
O documento chega dias após nova leva de demissões de cargos de liderança na Universal Music Group, que avança com programa de redução de custos de cerca de US$ 270 milhões em despesas anuais, de acordo com o Mundo da Música.
Shows e a conta com a Geração Z
O mercado de música ao vivo deve crescer 6% em 2026, depois de avançar apenas 0,5% em 2025. O relatório projeta ritmo médio de cerca de 6% ao ano até 2030 e de 5% até 2035.
A Geração Z é o público apontado como motor. Uma pesquisa da Cash App citada no documento mostra que shows foram a principal prioridade de gastos da geração no ano passado, e 75% dela pagariam preço de revenda para ir a esses eventos. Uma pesquisa da Live Nation, de outubro de 2025, aponta que 91% dos entrevistados colocam shows entre as três maiores prioridades de gasto com experiências.
Entre os projetos ligados à produtora listados no relatório: uma nova arena em São Paulo, com capacidade para 21 mil pessoas, prevista para 2028, em parceria com o Cidade Center Norte.
O que isso muda para o negócio
A revisão do Goldman sinaliza uma mudança de fase. A primeira década do streaming cresceu pela adesão — novos assinantes em novos mercados. A próxima, segundo o próprio banco, cresce por preço, por show e por venda direta ao superfã.
Para artistas e gravadoras, o ponto crítico está no trecho em que o relatório afirma que as gravadoras "enfrentam um risco estrutural de diluição da participação de mercado", nas palavras do documento citadas pelo Mundo da Música.
Para o mercado brasileiro, o dado a acompanhar é o preço: o Goldman aponta a América Latina como candidata a aumento de assinaturas — decisão que, num mercado com alta concentração em plano família e compartilhamento de contas, coloca à prova o teto de quanto o consumidor está disposto a pagar antes de migrar para o plano gratuito.
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